30 de novembro de 2012

O prostíbulo romanesco


Pré-Script: esse texto traz linguagem inapropriada aos que têm problemas conjugais, cardíacos e éticos, gente que, por sugestão do editor, deve deixar de lê-lo neste exato momento.
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O calor de uma dessas tardes de outubro, ainda sem flores, não intimidou um dos maiores eventos realizados no Clube Barro Preto. Talheres lustrados, joias reluzindo e vai-e-vem de leques na assembleia geral extraordinária convocada pela LAMA (Liga Associativa das Madames Aposentadas). O encontro, organizado ás pressas, pretendia debater a situação de uma casa de perversões em funcionamento no bairro da Cango – mais uma.

Se intrometer em assuntos prostitucionais era comum à “polícia moral”, como ficou conhecida a LAMA. Em tempos idos, até um ofício formal fora enviado ao presidente Garrastazu pedindo providências quanto a um caso de lenocínio na cidade. “Solicitamos, para tanto, o fechamento imediato de tal contubérnio público que fere ante o decoro da população, dissipa a virilidade dos nossos cônjuges e atenta à moral do povo de bem, os bons costumes da sociedade e a nossos clitóris”, dizia trecho do documento que tinha por destinatário o presidente da República.

Desta vez, porém, o tom dos debates não era de ataque, mas de consentimento quanto a existência e continuidade do Monte Olympo, o mais novo antro de perdição da cidade. O empreendimento era fruto da ousadia de um visionário comerciante que, pego pela trama das relações humanas e sociais, destas que ninguém está impune, perdeu a relojoaria da qual era proprietário numa carteada de bodega. Sozinho no mundo, fez da habilidade como Don Juan do sertão seu ganha-pão.

“Má óme do céu, tu acha que isso aí vai dá dinheiro? É só incomodação”, respondeu o taxista da praça, e comentador dos assuntos gerais e particulares, ao saber que Pedro Jóia acabara de abrir um bordel. Mas diferentemente d’outras casas de meretrício, esta atendia exclusivamente o público feminino e comercializava amor ao invés de apenas sexo – parcelados em até três vezes com promissória. Não demorou muito pro afã se tornar conhecido e frequentado pela elite feminina beltronense, detentora de muito dinheiro e pouco afeto.

O início do negócio foi na informalidade mesmo. Pedro Jóia, depois de falido, era uma espécie de profissional liberal do galanteio, um microempreendedor individual do romantismo. Começou angariando a clientela à porta da igreja depois das missas de quarta-feira. “Primeiro a obrigação, depois o divertimento”, dizia ironicamente uma de suas clientes-amantes. E, aos poucos, fez fama, apostando, segundo a lógica capitalista, num nicho de mercado em ascensão: o das mulheres casadas, mas malamadas (a até umas sadomasoquistas).

Num semestre, já eram quatro homens na equipe. O RH exigia como pré-requisitos básicos para a função ter voz grossa, pelos no peito, bigode e algum porte físico. O resto da técnica – bordões de cantadas inteligentes em situações diferentes e um pouco de literatura byroniana – o tempo e a experiência se encarregariam.

No prostíbulo do amor existiam várias salas. Dependo do gosto da cliente, a recepção ia desde um olhar discreto até um beijo na mão com elogio, desses que não constam em livros de autoajuda. Pela casa, meia dúzia de homens a escolher mais pelos aspectos morais que físicos, propriamente ditos, e na parede um par de arreios e a cruz de São Sebastião.

Gente séria, e outras nem tanto, frequentavam o lugar. Donas de casa, esposas de empresários do ramo madeireiro e secretárias bilíngues diziam ir à missa quando na verdade se encontravam com os deuses do Olympo.

Nem todas, claro, iam pra cama com os garotos de aluguel. Mas as que cediam à tentação da carne, muito mais por força das circunstâncias que por uma predisposição natural, manchavam sua reputação por participarem de uma das práticas sexuais mais hediondas e imorais da humanidade: papai-e-mamãe… com a luz apagada, preliminares e requintes de crueldade. Esses bandidos da luz vermelha até sussurravam um “eu te amo” no ouvido das incautas. No dia seguinte, rosa vermelha e um cartão escrito de próprio punho. Baita putaria!

Ménage à trois? Em hipótese alguma, nem na última sexta-feira do mês.

O empreendimento foi bem até que começou a mobilização de um grupo de homens que se sentia ofendido com a concorrência desleal. O “clube do guampa” – assim ficaram conhecidos – se reunia semanalmente para traçar estratégias de combate a essa perversão do corpo e da alma, até que conseguiram caçar o alvará do estabelecimento por atentar aos bons costumes da população. Era tal situação que a LAMA pretendia reverter e para isso convocou uma assembleia geral com suas integrantes, as mais prejudicadas com o fechamento do Monte Olympo. Em vão, como também foram as noites de amor vividas na primeira porta depois da escada.

Pedro Jóia e seus homens nunca mais foram vistos pela cidade. Uns dizem que enlouqueceu e espera a morte num manicômio em Santa Tereza, plagiando e complementando Dostoiévski aos gritos – “a beleza (e o amor) salvará o mundo”. Outros contam que reinvestiu no mercado de ações o que ganhara e passa férias eternas em Cancún.

Mas naquela vilazinha que testemunhou a maior aventura romanesca do país, a classe hetero ainda conta vantagem do tempo que botou os forasteiros pra correr. E continua não amando suas mulheres.

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