Pré-Script: esse texto traz linguagem inapropriada aos
que têm problemas conjugais, cardíacos e éticos, gente que, por sugestão do
editor, deve deixar de lê-lo neste exato momento.
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O calor de uma
dessas tardes de outubro, ainda sem flores, não intimidou um dos maiores
eventos realizados no Clube Barro Preto. Talheres lustrados, joias reluzindo e
vai-e-vem de leques na assembleia geral extraordinária convocada pela LAMA
(Liga Associativa das Madames Aposentadas). O encontro, organizado ás pressas,
pretendia debater a situação de uma casa de perversões em funcionamento no
bairro da Cango – mais uma.
Se intrometer em
assuntos prostitucionais era comum à “polícia moral”, como ficou conhecida a
LAMA. Em tempos idos, até um ofício formal fora enviado ao presidente
Garrastazu pedindo providências quanto a um caso de lenocínio na cidade.
“Solicitamos, para tanto, o fechamento imediato de tal contubérnio público que
fere ante o decoro da população, dissipa a virilidade dos nossos cônjuges e
atenta à moral do povo de bem, os bons costumes da sociedade e a nossos
clitóris”, dizia trecho do documento que tinha por destinatário o presidente
da República.
Desta vez, porém, o
tom dos debates não era de ataque, mas de consentimento quanto a existência e
continuidade do Monte Olympo, o mais novo antro de perdição da cidade. O
empreendimento era fruto da ousadia de um visionário comerciante que, pego pela
trama das relações humanas e sociais, destas que ninguém está impune, perdeu a
relojoaria da qual era proprietário numa carteada de bodega. Sozinho no mundo,
fez da habilidade como Don Juan do sertão seu ganha-pão.
“Má óme do céu, tu acha que isso aí vai dá dinheiro? É só incomodação”, respondeu o taxista da praça, e comentador dos assuntos gerais e particulares, ao saber que Pedro Jóia acabara de abrir um bordel. Mas diferentemente d’outras casas de meretrício, esta atendia exclusivamente o público feminino e comercializava amor ao invés de apenas sexo – parcelados em até três vezes com promissória. Não demorou muito pro afã se tornar conhecido e frequentado pela elite feminina beltronense, detentora de muito dinheiro e pouco afeto.
“Má óme do céu, tu acha que isso aí vai dá dinheiro? É só incomodação”, respondeu o taxista da praça, e comentador dos assuntos gerais e particulares, ao saber que Pedro Jóia acabara de abrir um bordel. Mas diferentemente d’outras casas de meretrício, esta atendia exclusivamente o público feminino e comercializava amor ao invés de apenas sexo – parcelados em até três vezes com promissória. Não demorou muito pro afã se tornar conhecido e frequentado pela elite feminina beltronense, detentora de muito dinheiro e pouco afeto.
O início do negócio
foi na informalidade mesmo. Pedro Jóia, depois de falido, era uma espécie de
profissional liberal do galanteio, um microempreendedor individual do
romantismo. Começou angariando a clientela à porta da igreja depois das missas
de quarta-feira. “Primeiro a obrigação, depois o divertimento”, dizia
ironicamente uma de suas clientes-amantes. E, aos poucos, fez fama, apostando,
segundo a lógica capitalista, num nicho de mercado em ascensão: o das mulheres
casadas, mas malamadas (a até umas sadomasoquistas).
Num semestre, já
eram quatro homens na equipe. O RH exigia como pré-requisitos básicos para a
função ter voz grossa, pelos no peito, bigode e algum porte físico. O resto da
técnica – bordões de cantadas inteligentes em situações diferentes e um pouco
de literatura byroniana – o tempo e a experiência se encarregariam.
No prostíbulo do
amor existiam várias salas. Dependo do gosto da cliente, a recepção ia desde um
olhar discreto até um beijo na mão com elogio, desses que não constam em livros
de autoajuda. Pela casa, meia dúzia de homens a escolher mais pelos aspectos
morais que físicos, propriamente ditos, e na parede um par de arreios e a cruz
de São Sebastião.
Gente séria, e
outras nem tanto, frequentavam o lugar. Donas de casa, esposas de empresários
do ramo madeireiro e secretárias bilíngues diziam ir à missa quando na verdade
se encontravam com os deuses do Olympo.
Nem todas, claro,
iam pra cama com os garotos de aluguel. Mas as que cediam à tentação da carne,
muito mais por força das circunstâncias que por uma predisposição natural,
manchavam sua reputação por participarem de uma das práticas sexuais mais
hediondas e imorais da humanidade: papai-e-mamãe… com a luz apagada,
preliminares e requintes de crueldade. Esses bandidos da luz vermelha até
sussurravam um “eu te amo” no ouvido das incautas. No dia seguinte, rosa
vermelha e um cartão escrito de próprio punho. Baita putaria!
Ménage à trois? Em hipótese alguma, nem
na última sexta-feira do mês.
O empreendimento foi
bem até que começou a mobilização de um grupo de homens que se sentia ofendido
com a concorrência desleal. O “clube do guampa” – assim ficaram conhecidos – se
reunia semanalmente para traçar estratégias de combate a essa perversão do
corpo e da alma, até que conseguiram caçar o alvará do estabelecimento por
atentar aos bons costumes da população. Era tal situação que a LAMA pretendia
reverter e para isso convocou uma assembleia geral com suas integrantes, as
mais prejudicadas com o fechamento do Monte Olympo. Em vão, como também foram
as noites de amor vividas na primeira porta depois da escada.
Pedro Jóia e seus
homens nunca mais foram vistos pela cidade. Uns dizem que enlouqueceu e espera
a morte num manicômio em Santa Tereza, plagiando e complementando Dostoiévski
aos gritos – “a beleza (e o amor) salvará o mundo”. Outros contam que
reinvestiu no mercado de ações o que ganhara e passa férias eternas em Cancún.
Mas naquela
vilazinha que testemunhou a maior aventura romanesca do país, a classe hetero
ainda conta vantagem do tempo que botou os forasteiros pra correr. E continua
não amando suas mulheres.

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