Pré-Script: esse texto traz linguagem inapropriada aos
que têm problemas conjugais, cardíacos e éticos, gente que, por sugestão do
editor, deve deixar de lê-lo neste exato momento.
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O calor de uma
dessas tardes de outubro, ainda sem flores, não intimidou um dos maiores
eventos realizados no Clube Barro Preto. Talheres lustrados, joias reluzindo e
vai-e-vem de leques na assembleia geral extraordinária convocada pela LAMA
(Liga Associativa das Madames Aposentadas). O encontro, organizado ás pressas,
pretendia debater a situação de uma casa de perversões em funcionamento no
bairro da Cango – mais uma.
Se intrometer em
assuntos prostitucionais era comum à “polícia moral”, como ficou conhecida a
LAMA. Em tempos idos, até um ofício formal fora enviado ao presidente
Garrastazu pedindo providências quanto a um caso de lenocínio na cidade.
“Solicitamos, para tanto, o fechamento imediato de tal contubérnio público que
fere ante o decoro da população, dissipa a virilidade dos nossos cônjuges e
atenta à moral do povo de bem, os bons costumes da sociedade e a nossos
clitóris”, dizia trecho do documento que tinha por destinatário o presidente
da República.
Desta vez, porém, o
tom dos debates não era de ataque, mas de consentimento quanto a existência e
continuidade do Monte Olympo, o mais novo antro de perdição da cidade. O
empreendimento era fruto da ousadia de um visionário comerciante que, pego pela
trama das relações humanas e sociais, destas que ninguém está impune, perdeu a
relojoaria da qual era proprietário numa carteada de bodega. Sozinho no mundo,
fez da habilidade como Don Juan do sertão seu ganha-pão.


