Entrevista fictícia com Valmor
Barboni
Memória da prostituição em Londrina/PR – 1944/1970
Na
fachada daquele estabelecimento beira-de-estrada não há nenhuma placa indicando
ser ali a bodega do seo Valmo. Também pudera, nem precisa identificar o local
onde reside na parte de cima e trabalha na de baixo o quase octogenário Valmor
Barboni, proprietário do referido estabelecimento. Mais disposto que muita
gente de 40, seo Valmo é parte da história londrinense. Apesar de seus feitos
não constarem em livros, sua pessoa não receber homenagens e nem seu nome ser
emprestado a alguma rua ou obra importante, é este menino, que começou a
trabalhar ainda cedo e depois virou homem da noite, que ajudou a construir a
história dos áureos tempos do café que tornou Londrina conhecida em todo país
pelas noites de farra nos cabarés, belas prostitutas e amores bem pagos. A
mesma história que hoje não passa de memória boêmia e que as oficialidades
fizeram questão de esquecer, a ponto de seus personagens não serem homenageados
nem na fachada de uma bodega na beira da 445.
E
foi no balcão desta mesma bodega, próxima de Paiquerê, que o seu proprietário
expôs o que podemos considerar o Manifesto Memorial da Prostituição Londrinense.
Éramos somente nós três: eu com minha curiosidade, seo Valmo com suas
lembranças e o alambique de Amburana com a cachaça que em outros tempos regava
a difícil vida fácil no estabelecimento de número 135 da Vila Matos, mais
conhecido por Casa da Selma.
Atraído á Londrina pela aspiração de progresso e boa
vida da região, esta em virtude da abundância de fazendas de café, seo Valmo,
mais por força das circunstâncias que por uma predisposição natural acabou por
ganhar a vida em um local moralmente condenável, mas constantemente procurado:
o meretrício.
Começa aí, seo Valmo: como que tu veio pra Londrina e o
que tinha aqui na época?
Eu
tava numa situação que não era muito boa lá em Ourinhos. Minha mãe fugiu e meu
pai se matou e como eu era o mais novo dos quatro hóme, meus irmão mais véio
arrumaram lugar pras minhas irmã e eu fiquei meio sozinho, mas já conseguia me
virá, dava meus pulo. Tinha na época uns 15 anos e aqui diziam que tinha o ouro
preto, era uma região rica por causa do café e que ainda tinha muito que
crescer; aí vim pra cá com o Célio, um piazão, meu conhecido lá de Ourinhos.
Aqui a gente chegou em 44, mais ou menos, viémo com trabalho arrumado e tudo.
Eu e ele trabalhava no armarinho do seo Milton; saia ainda cedo pra levar
mantimento de carroça até os distrito mais perto da sede e voltava ainda a
noitinha, isso quando não acontecia nenhum imprevisto, que era coisa bem comum
na época, de estragar o carro, de chover ou mesmo se perder, porque eu mal
sabia onde ficavam os lugar [risos].
Mas e como que virou garçom na zona?
Ah,
essa é uma história que da até de duvidar, mas é verdade. Aqui tinha a rua do
Pecado, como era conhecido ali na Brasil. O que tinha de zona ali era
brincadeira e depois dum tempo que tava aqui, eu e o Célio ia lá de vez em
quando, que sabe como é né: piá sem família e pobre que nem eu era difícil pra
arrumá namorada, daí a gente ia lá, além
de i escondido ver umas tomar banho no lago. Tinha dado uns rolo já com o seo
Milton que nem pagava direito e gastemo o pouco que tinha lá num cabarézinho,
numa só tarde, porque a gente vai, as mulher oferece as coisa e a gente se
empolgava, piazão novo, capaiz que não ia né? Como eu não andava com nada de
valor pra deixar de garantia, que era comum naquele tempo, eu e o Célio, pra
não apanhar dos home que as mulher contratava, combinemo de voltá e fazê uns
concerto na casa e por duas noite servá as bebida. Aí a gente cria amizade e
como lá com seo Milton não tava muito bom, a Jurema, que era a dona, propostiou
de contratar a gente, aí ficamos, né. Eu assim ganhei a vida e o Célio não durou
muito, teve que dá no pé depois dum tempo; nunca mais ouvi falar dele.
E devia ser um trabalho difícil, ainda mais com a
discriminação que tinha.
Isso
era o que mais tinha, principalmente na igreja. Eles dizia que as casa
incomodava, que mulher honrada não fica se fresquiando, que as zona não eram
lugar de boa gente, que só ia marginal. E isso quem me dizia eram as própria
mulher lá das casa, que elas eram mulher da vida, mas eram católica, iam na
igreja e lá o padre dava os sermão falando mal da gente e das mulher. Mas isso
nem foi tão ruim, pior era os vizinhos que faziam até abaixo assinado para sair
lá d’onde tinha as casa, na Rua Brasil, porque diziam que tinha muito marginal
e gente que não prestava. Aí já viu, né. Até os vereador compravam a briga e
muita pessoa em voz alta queria que a gente se mudasse, mas no silêncio da
noite ia lá nas casa.
Foi aí que o pessoal mais poderoso queria se ver longe
das casa e escolheram um novo local para a zona. Como que foi essa mudança, seo
Valmo?
Pois
é. Eu na época já tava experiente no negócio, trabalhando na Boite Colonial,
que era a da Jurema. Daí todo mundo reclamava e o delegado Mercer fez um
decreto pra transferí a zona pra outro lugar, que ali tava incomodando os
vizinhos e não aceitavam de jeito maneira as casa ali, bem no cento da cidade.
Aí o prefeito Menzes chamou todo mundo lá no gabinete dele e falou que não
tinha mais volta; tava decidida a transferência da zona. Só que quem mais saiu
ganhando foi o Mercer, que fez o decreto. Os lotes lá do novo lugar custavam
Cr$5 mil, depois do anúncio passaram pra 30: 15 de entrada e o resto em 15 veis,
que era como vendiam na época. Aí tinha chucho, que pelo menos a metade ficava
na mão do delegado. Por causa do preço, a Jurema nem quis ir pra lá, foi
embora, daí arrumei emprego mais tarde na casa da Selma, que era uma das melhor
na época. Em pôco tempo, a Vila Matos já tinha umas 100 casa, eram duas quadras
que tinha mulher pra tudo os gosto e bolso.
O que o pessoal [Estado] não gostava era por causa das
doenças. Tinha algum tipo de assistência à saúde das mulheres?
Primeiro
queriam que todo mundo fosse no Centro de Saúde pra fazer os exames, mas as
mulher eram meio relaxada com isso e nem iam muito. Depois, mais tarde, chega
até a ter uma equipe que ia de casa em casa ver como tava as mulher. Lembro que
as mulher tinha até carterinha de saúde e veio médico até de Curitiba pra fazer
parte dessa equipe. Chamava atenção a tal de Miss Lane, uma alemoa ali de
Rolândia que já tinha uma certa idade, mas fazia questão de trabalhar de graça
com os médico. Ela vinha quase sempre, chegava com o carro do posto e se
preocupava mesmo com as mulher pra não pegar sífilis ou a blenorragia, que
tinha aos monte na época. Acho que ela
até morreu, porque depois dum tempo nunca mais vimo ela, mas era bem amiga das
mulher e quando precisava ela chamava atenção. Essa era faca na bota, que nem
diz os gaúcho [risos].
E tinha uma divisão entre as melhores e as piores
casas ou era tudo meio misturado?
Era
uma divisão só no trato das autoridade, porque entrou na Vila Matos todo mundo
é igual, não tinha discriminação com um ou com outro por ser pobre. Na zona era
bandido com polícia, cobrador com devedor, sogro com genro; ali todo mundo era
amigo. E isso que era o baguá da coisa, porque antes os homem iam nas rinha de
galo ou carreirada e depois vão na zona pra se encontrá, fazer farra, beber,
dançá ou mesmo conversar e jogar um baralhinho. Mas era todo mundo muito amigo,
lembro até quando um assuntado cidadão ateou fogo na Boate da Jussara e os
bombeiro demoraram chegar que se não fosse a gente tinha queimado tudo a zona,
porque imagina, era tudo de madeira. Depois disseram que foi um incêndio
causado por uma vela deixada num dos quarto, mas foi uma pessoa de prestígio da
cidade que não gostou do programa e se vingô. Se não fosse a gente se reunir e
dá uma camassada de pau no cara uns dia depois, nem ia acontecer nada com ele,
porque era influente, mas isso porque a gente da zona era muito amigo e quando
dava essas coisa todo mundo se ajudava, seja pra auxiliar as desabrigadas ou
pra bater nos sujeito.
Ninguém melhor que você pra falar da vida das
prostitutas, já que convivia com elas. Como que era o cotidiano no cabaré e o
que elas faziam no tempo de folga, se é que havia folga?
Tinha
sim, porque era um serviço judiado. Lá a gente via cada história das mulher e
acaba ficando muito amigo delas por isso, por dó, que elas tinham sido sofrida
na vida. Ali na Selma elas acordavam já de tarde, lá pelo meio dia, daí almoçavam
um arroz, feijão, carne também, sempre tinha tudo bom e podia entrar na cozinha
a hora que quisesse, elas nem precisavam cozinhar, tinha uma só pra isso.
Geralmente elas ficavam na casa de tarde, pra atender os cliente que sempre
vinham, mas pelo menos uma vez por semana iam pra cidade, pra passear, fazer o
cabelo, a unha e até ir na missa e todo mundo via quem era mulher da vida por
falar e se vestir mais chamativa. Mas elas não iam a pé, tinha os charreteiros
que buscavam e depois traziam e até chamavam de balaio de puta, de tanto que
elas usavam. As mula já tavam até ensinada, nem precisava de condutor [risos];
tinha que cuidar que se soltasse elas vinha sozinha pra zona. Mas elas tinham
uma vida que era boa, ganhavam um dinheiro bom, porque elas ficavam com o
programa e ainda ganhavam uma comissão pela bebida e do quarto, o resto era da
casa. Aí quanto mais trabalhava, mais ganhava. Agora, movimento grande era
depois das dez e as casa podiam funcionar só até as três, senão cassavam o
alvará. Daí fechava a casa às três, mas a gente continuava as festa lá no
Restaurante do Toninho, com gaita, violão e comendo canja da madrugada e o
famoso arroz de puta.
E que tipo de pessoas frequentavam a zona?
Tinha
de todo o tipo. Desde aquele que era mais cheio de dinheiro, os fazendeiros,
político, que iam de vez em quando, até aqueles que guardavam dinheiro ano
inteiro pra ir lá passar uma noite. Era bem acessível, porque tinha casa de tudo
o tipo, mas na da Selma era só mais gente graúda.
Mas então não era só o povão que ia. Também tinha
gente da alta sociedade.
Ah,
isso tinha aos montes. Ia secretário importante, até o governador uma vez
passou lá. Eu lembro que tinha o espaço mais comum lá na Selma e tinha uma
salinha mais reservada, pra quem não queria ser visto junto com os outros. Daí
um dia chegou lá o Lupion e uma comitiva, aí se apuremo pra tirar uns do
Exército que tavam lá na salinha, mas não queriam sair, aí se misturaram tudo e
viraram amigo. Foi farra e bebedeira a noite inteira. Mas tinha uns que
gostavam de mais privacidade e fechavam a zona pros bacanais deles, e isso era
caro. Uma vez numa dessa eu tive que ir em São Paulo cobrar dois cheques que
voltaram. Um deles era dum oficial de justiça e o outro era do bispo. Por sorte
ele pagou, religiosamente, a conta.
É um ambiente de maior presença masculina e de uma
certa disputa. Havia gente que se tramava na bala ou no soco por causa de
mulher ou brigava por outras coisas?
Sempre
tinha segurança, mas de vez em quando bebiam demais e se estranhavam. Como era
muito comum o pessoal andá armado, a gente tinha uma salinha lá em cima que era
só pra guardar as arma depois que o segurança revistava: tinha noite que eram
mais de 40 revólver e pistola naquela mesa. Uma vez até dentro da casa teve tiro,
quando chegaram três sujeitos querendo mulher e não tinha. Ah, eles reinaram e
quiseram brigar, mas por sorte o Alcides, que era um charreteiro amigo nosso,
tava armado e pregô bala nos cara, que saíram correndo, mas um ele diz que acertou
no garrão. E fora isso tinha as briga das mulher por cliente, até uma vez uma
deu umas canivetada em outra, mas quase nunca isso ia pra Delegacia, até porque
os policial passavam de vez em quando ver se tava tudo bem e muitos eram
cliente nosso.
Ah, mas a Polícia protegia, então?
É,
protegia porque a gente pagava uns Cr$20 pra eles passar lá e de vez em quando
dava uns agradinho, sabe? Mas eles iam, dava uma olhada, mais pra ver as mulher
que pra cuidar das briga e se tava tudo bem já iam embora. Naquela época os
policial eram mais respeitado na zona que na rua, até pela amizade que uns
criavam e por trabalharem de segurança nas noite de folga.
Tanto que aqui era a referência nacional quando se
falava de farra e putedo. Deve ter rolado muito dinheiro nisso?
Xí,
e como. Eu consegui fazer um caixinha depois, porque eu não era só garçom,
fazia um pouco de tudo, mas teve muito dinheiro. Lá por 60, quando ficou mais
forte, a Selma ia em São Paulo buscar mulher e trazia só as melhor. Chegava lá
pelas quatro da tarde das sexta-feira e não ficava ninguém nos bar, iam tudo
pro aeroporto ver o avião da Vasp descer e trazer as menina, porque todo mundo
queria sê o primeiro a pegar elas. Aí elas vinha e passavam o final de semana
aqui na casa ou a gente fazia umas festa mais reservada lá na chácara do Mário
Funganti e na segunda elas voltavam com a bolsa cheia de dinheiro lá pra São
Paulo. E era comum vir meninas também do Paraguai, Argentina pra cá, até a Chez
Diana, aquela dançarina, uma vez veio se apresentar e daí deu uma história que
sai até no jornal e nas rádios, porque ela veio de carona num avião da FAB. Ah,
aí deu o que falar né, o Jânio, que ainda era o presidente, mandou prender os
envolvido no escândalo. Dessa época eu também tenho fotos com a Emilinha Borba,
a Dercy Gonçalves e o Carlos Galhardo, tudo famoso que vieram se apresentar lá
na casa.
Mas isso foi só enquanto teve café pra financiar;
depois tem umas crises e nisso o que acontece com toda essa rede financiada
pela prostituição?
Isso
era ruim, porque a gente dependia muito do café. Se tinha safra boa o movimento
era garantido, se não daí já piorava. Agora, teve a geada negra em 75 que
acabou com tudo. Uns dez anos antes já havia dado uma quebra boa com a
transferência da Vila Matos, por causa do crescimento da cidade e os vereador e
o pessoal que quiseram mudar a zona e acharam um novo lugar, chamaram de Vila
Iara, ali na saída pra Ibiporã. Isso foi ruim pelo novo lugar sê meio longe e
de acesso ruim, aí o pessoal não ia muito. A Selma até transferiu a casa pra lá
com mais umas e era difícil manter; aí com a geada de 75 acabou de vez.
E com as moças, o que aconteceu?
Muita
casa fechou por causa da transferência e as mulheres que ficaram sem ofício
foram trabalhar na rua mesmo, alugando um quartinho, se encontrando no Cine
Ouro Verde. Se tu for agora lá na [Praça] Floriano Peixoto vai encontrar a
Palmira e umas outras que tão véia, mas continuam a profissão. Mas a maioria
foi embora, porque tava ficando mais difícil com os passar dos anos.
A Selma também foi embora?
Essa
eu não deixei [risos]. Ela já tava com quase 40 ano quando faliu a casa e eu com
um caixinha bom dos meus ano de trabalho, aí resolvemos se ajuntar e montar um
comércio de secos e molhados até que viemos parar aqui. Até uma criança duma
vizinha que não queria a gente adotou e hoje tá aí esse cavalão [apontando para
a mesa onde jogavam quatrilho] que me ajuda a cuidar da bodega, das veis vai
pra cidade comprá umas coisa, mas tá aí; esse não me abandona. E a gente se
vira, sabe, mesmo sem mulher, mas tem movimento e amigos aqui direto e assim a
gente toca a vida. Mas se tem uma coisa que eu faço questão de não abandonar é atender
o pessoal aqui no balcão e é o que eu quero fazer até morrer, já que foi meu
sustendo de tanto tempo.
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PS: Numa tarde de março, oito meses após a realização
desta entrevista, um derrame cerebral vitimou seo Valmo enquanto ele atendia no
balcão de sua bodega. O fato não foi primeira página da Folha de Londrina, e
nenhuma homenagem pós mortem lhe foi
dedicada. Nas escolas londrinenses, as crianças continuam a aprender a história
dos vencedores, enquanto seo Valmo, personagem antagônico desta, repousa nas
frias paredes do subterrâneo de Paiquerê.
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Bibliografia:
LEME, Edson H. Noites Ilícitas: História e Memória da
Prostituição. Londrina: Eduel, 2005.
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