Por Jorge Baleeiro de Lacerda*
Hoje, na esquina da
Rua Niterói com a Rua Goiás, no bairro Alvorada, em Francisco Beltrão, não
existe mais o velho casarão de 40, 30 ou 25 janelas, onde funcionava uma casa
de tolerância, eufemismo para "zona". Nesse local está, hoje, a bela
casa de Milton Inocêncio (diretor da Unifas).
A hipocrisia
nacional, abominável e "santa hipocrisia" tupiniquim, nunca permitiu
que se falasse, às claras, sobre as ZBM, zonas do baixo meretrício, que a
ortodoxia da Igreja chama de "reduto do pecado". Esse aspecto da vida
beltronense, por certo, não virá tão cedo à tona, à luz da história, quando
seria de imensa importância para que se soubesse, sem falso pudor monástico,
como era a vida intramuros dessas casas de prazer dos tempos pioneiros
pré-camisinha e pré-Aids. Serviria até para um estudo comparativo de
comportamento, de hábitos de lazer.
Certa feita, como me
disse em sua casa de Goiás Velho, Cora Coralina fez um poema em que chamava a
"mulher da vida" de "minha irmã". Bastou isso para que
muita gente imaginasse que fora prostituta, ofício a que o padre Alfredinho
Kunz viu como suprema humilhação. A maior besteira que Nélson Rodrigues afirmou
foi: a prostituição é vocacional, quando, na verdade, é uma chaga social. O
Padre Kunz condenava a prostituição, mas brigava pelo bem-estar das
prostitutas. Jamais atiraria uma pedra numa delas. O Padre Kunz era um santo,
que conheci em sua casinha - na zona em Crateús - Ceará, vivendo entre mulheres
da vida para provar o sofrimento e o grau de exploração por elas sofrido. O
padre Alfredinho morreu, faz algum tempo, em São Paulo, com odor de santidade,
aclamado como santo.
Nunca, em parte
alguma do Brasil, vi um monumento à "mulher da vida", à prostituta.
Minto. Certa feita, hóspede de dom Aldo Gerna, em São Mateus, Espírito Santo,
na praça do porto, à beira do Rio Doce, vi uma placa em que eram lembradas as
prostitutas que ali faziam ponto. Deve estar lá até hoje.
Desde que o mundo é
mundo, essas mulheres vendem prazer e protegem as virgens. A sofisticação vai
acabando com os prostíbulos clássicos, as zonas, os velhos "salões"
como a "casa das 25 janelas", bordel beltronense dos anos 60, que
havia no bairro Alvorada, citado até em livro, como "Os Dez
Sudoestes", editado por obra, empenho e arte de Ivo Pegoraro, aproveitando
artigos deste escriba publicados ao longo dos últimos anos no Jornal de
Beltrão. Quatrocentos exemplares serão reservados para as bibliotecas públicas
municipais do Paraná. É a única exigência que faço!
Tive a oportunidade
de fotografar o casarão já sem mulheres, caindo aos pedaços. A foto é de
fevereiro de 1977. Creio que seja a única foto existente dessa "casa de
tolerância e orgasmo", diria Jorge Amado.
Tinha uns vinte
metros por sete (vide foto), dois andares. O telhado era de tabuinha
(scándole). Ficava, então, na periferia da cidade. À medida que Beltrão foi
crescendo rumo ao morro da caixa d’água, o casarão começou a ficar muito perto
da cidade, até que perdeu espaço. Nessa época, ainda não havia, como hoje, as
facilidades de locais para esse tipo de manifestação do amor-carnal.
Ainda vivia o nosso
Repórter Esso, o Vitório Traiano, 90 anos, memória perfeita, que contestava que
o casarão tenha sido chamado de "40 janelas", mas sim de "25
janelas", e me ampliava a informação. Cito de memória: "O Albertino Vieira
comprou o velho Hotel Cruzeiro, do Damásio Gonçalves, construído onde está hoje
o Hospital São Francisco. Albertino era casado com Alzira Cabral, então muito
jovem. O casal tocou o bordel até 1971 ou 72, depois foi para Foz do Iguaçu,
onde seguiu nesse ramo de atividade. Mais tarde, o Cachimbo (seu Stüpp) teve um
hotel com o nome também de Hotel Cruzeiro. Parece que foi na primeira
administração do Arruda que o pardieiro foi desmanchado. O Albertino era
gaiteiro".
Apenas como
registro, cito as "40 janelas", mas acredito nas informações do
Traiano e que o povo chamava de "25 janelas". Quanto às instalações
internas (banheiros, quartos, salão de baile?), ficamos sem saber, mas por
certo algum frequentador daquela época (manteremos sigilo absoluto!) mandará
carta dando pormenores sobre o vetusto lupanar, referência maior de Eros e
Baco, na cidade de Francisco Beltrão, nos idos de 55-72.
Trata-se de um fato.
Faz parte da vida desta urbe e o tema não pode ser negligenciado pelo
pesquisador, embora não façamos a apologia da prostituição, fato social
inocultável, posto à margem pelo preconceito e pela hipocrisia.
*Autor de
"Os Dez Brasis" e "Os Dez Sudoestes", percorreu todo o
Brasil nos últimos 35 anos.

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